
O Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal está de olho no Pacífico. Mais especificamente, na temperatura da superfície oceânica de uma região que, quando aquece além do normal, desencadeia uma série de efeitos climáticos capazes de secar o Cerrado, multiplicar os focos de incêndio e colocar em risco a biodiversidade do bioma cerrado.
O fenômeno se chama El Niño — e as projeções para 2026 acendem um alerta que o tenente-coronel Marcelino, responsável pelo Grupamento de Proteção Ambiental do CBMDF, foi ao programa Vozes da Comunidade neste sábado (30) explicar com clareza para a população.
“A perspectiva é de mais de 90% de chance de o fenômeno acontecer. A grande questão agora é qual vai ser a intensidade dele”, disse o Ten.-cel. Marcelino, ressaltando que as previsões climáticas ganham mais precisão a partir de julho, quando se reduz a chamada “barreira de previsibilidade da primavera”.
Uma operação que cresce com a seca
A Operação Verde Vivo 2026, lançada esta semana pelo CBMDF, é o eixo central da preparação institucional para a temporada. O que chama atenção não é apenas o tamanho do efetivo mobilizado — mas a lógica da operação, que escala progressivamente conforme a estiagem avança.
Nos momentos mais críticos, o plano prevê 12 postos avançados além das 25 bases multiemprego já existentes, 200 bombeiros diários dedicados exclusivamente ao combate a incêndios florestais e capacidade de mobilizar até 1.500 militares em um único dia, caso a situação exija. “A gente espera não chegar nesse ponto, mas nossa capacidade de mobilização já está estabelecida”, afirmou Ten.-cel. Marcelino.
Uma das passagens mais instrutivas da sabatina foi quando Ten.-cel. Marcelino explicou a diferença entre queima controlada, acidental e criminosa — e porque o fogo, em determinadas condições e momentos do ano, é encorajado pelos próprios gestores ambientais.
O cerrado, segundo o ele, é um bioma que evoluiu com o fogo. O problema não é o fogo em si, mas a frequência com que ele tem acontecido por ação humana: ciclos que seriam naturalmente de quatro ou cinco anos foram comprimidos para um ano, empobrecendo o solo e destruindo a biodiversidade. O manejo controlado, feito agora — quando a vegetação ainda tem alguma umidade — reduz o dano e cria “bolsões” que servem de refúgio para a fauna.
Mas a partir de agora, com a vegetação entrando no período de maior secura, o recado mudou. “Daí para a frente, não use mais fogo. Seja para a limpeza de terreno, de entulho, de resto de capim — evite. O fogo tem a capacidade de fugir do controle e virar um incêndio criminoso”, alertou.
Satélites da NASA, drones com câmera térmica e IA
O arsenal tecnológico montado para a temporada inclui monitoramento via satélites estacionários que atualizam os pontos de calor a cada 15 minutos, câmeras com zoom e leitura por inteligência artificial instaladas em parceria com a UnB — projeto DF Sem Fogo —, drones com câmera térmica para gestão tática no terreno e um Centro de Gerenciamento Ambiental que, a partir de julho, operará com três militares em tempo integral fazendo a coordenação em tempo real.
“A gente consegue acompanhar onde estão as viaturas, onde estão os focos de incêndio e fazer essa coordenação para ser o mais eficiente possível. Tecnologia é um recurso muito importante para a gente”, resumiu Marcelino. Ele destacou ainda o uso de drones após o combate, para detectar pontos quentes remanescentes — os chamados “rescaldos” — que poderiam reacender o fogo horas depois de aparentemente extinto.
Ao ser questionado sobre quais regiões do DF concentram maior risco, ele foi direto: as áreas rurais são as mais críticas. Planaltina, São Sebastião, Sobradinho, Paranoá, Brazlândia, Santa Maria e a região do Gama aparecem no topo do mapa de frequência de ocorrências. O corpo de bombeiros distribui os postos avançados com base em dados históricos e nas características de cada região — incluindo a proximidade com mananciais e áreas de preservação estratégicas para o abastecimento de água do DF.
O Ten.-cel. Marcelino encerrou a sabatina destacando que o CBMDF conta com cerca de 400 especialistas em incêndio florestal — militares com formação específica, inclusive em cursos internacionais, que têm prioridade de atuação nas guarnições do período crítico..
Operação Verde Vivo :números da temporada 2026
- Bases regulares: 25 grupamentos multiemprego em todo o DF
- Postos avançados: 12 adicionais nas regiões de maior risco
- Efetivo diário no pico: 200 bombeiros dedicados ao incêndio florestal
- Capacidade máxima: até 1.500 militares mobilizáveis em um único dia
- Especialistas: cerca de 400 com formação específica em incêndio florestal
- Tecnologia: satélites NASA, drones com câmera térmica, IA e monitoramento em tempo real
- Regiões críticas: Planaltina, São Sebastião, Sobradinho, Paranoá, Brazlândia, Santa Maria e Gama
O programa Vozes da Comunidade é apresentado pelo jornalista Toni Duarte, com transmissão ao vivo pelo YouTube e retransmissão por rádios comunitárias do DF e Entorno, conta com o apoio da Associação Brasileira de Portais de Notícias (ABBP).
Assista o programa na íntegra:
O post Tenente-coronel Marcelino participa do Vozes da Comunidade e traz informações importantes sobre o combate a incêndios no DF apareceu primeiro em Midia Alernativa.