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Megaoperações: como a violência afeta a saúde mental da população

A megaoperação realizada no Rio de Janeiro na semana passada se tornou um dos dias mais violentos da história recente do país. A ação policial ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte da cidade, e contou com cerca de 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar. Batizada de Operação Contenção, tinha como foco impedir o avanço do Comando Vermelho (CV) e executar mais de 100 mandados de prisão contra integrantes da facção.

O confronto terminou com 121 mortos, número que supera o registrado no Massacre do Carandiru, em 1992. A ação policial ganhou repercussão nacional e internacional e trouxe à tona a discussão sobre os efeitos da violência no cotidiano das favelas. Além dos confrontos e das perdas materiais, os moradores convivem com medo, tensão e insegurança, fatores que afetam o bem-estar e a saúde mental das comunidades.

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Como o medo afeta o corpo e o cérebro

Viver sob a ameaça constante de violência muda a forma como o corpo reage ao mundo. O organismo passa a se comportar como se o perigo estivesse sempre por perto, mesmo em momentos que aparentam tranquilidade. Essa resposta automática, criada para garantir sobrevivência, faz com que o sistema nervoso permaneça em alerta o tempo todo.

Nesse contexto, o cérebro libera hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina, substâncias que deveriam ser ativadas somente em situações pontuais. Quando esse mecanismo não desacelera, o sono fica leve, o apetite muda e o corpo começa a apresentar sinais de desgaste físico e emocional.

“A violência repetida mantém o sistema de alerta do cérebro em funcionamento contínuo, provocando alterações na memória, na atenção e na regulação emocional”, explica o psiquiatra Ricardo Patitucci, diretor da ViV Saúde Mental e Emocional, em Brasília.

Depressão e ansiedade nas periferias

A longo prazo, esse estado de vigilância pode favorecer o surgimento de transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. Em crianças e adolescentes, isso se reflete no comportamento e no desempenho escolar. Já entre os adultos, é comum a insônia, sensação de impotência e cansaço, sinais de um corpo que nunca consegue relaxar ou descansar.

A repetição de episódios violentos também interfere na percepção de futuro. Em muitos casos, a incerteza sobre a própria segurança faz com que as pessoas deixem de planejar a vida a longo prazo. Essa sobrecarga emocional, somada à falta de acesso a tratamento adequado, amplia os índices de sofrimento psicológico nas comunidades.

Foto colorida de megaoperação Policial nos Complexos do Alemão e Penha - MetrópolesA incerteza sobre a própria segurança impede o descanso e compromete a saúde mental de quem vive sob risco constante

Trauma individual e coletivo

Os impactos da violência se manifestam de formas diferentes em cada pessoa, mas também atingem as comunidades como um todo. O trauma individual está ligado à experiência direta de um evento extremo, como presenciar um tiroteio ou perder um familiar ou amigo próximo.

Já o trauma coletivo vai além da dimensão pessoal, ele surge quando um grupo inteiro é afetado por uma situação de grande impacto e o medo é compartilhado. Nesses casos, o sentimento de insegurança se espalha entre os moradores, altera as relações interpessoais e enfraquece o senso de comunidade.

Nesse contexto, mesmo quem não vivenciou o episódio de forma direta sente as consequências, já que o ambiente ao redor continua marcado pela sensação de tensão e violência.

Dificuldades no acesso ao cuidado psicológico

O psicólogo Lucas Fagundes, coordenador da unidade Gávea de Saúde Mental, em Brasília, aponta que nas comunidades, muitos moradores evitam buscar ajuda profissional por medo do estigma, pela falta de tempo ou pela crença de que é preciso suportar a dor sozinhos. A rotina de tensão faz com que sintomas de ansiedade, insônia e irritabilidade sejam vistos como parte natural do cotidiano.

“O tratamento da saúde mental não depende apenas de medicamentos, mas também da criação de espaços seguros para que as pessoas possam falar e elaborar o que viveram”, afirma o coordenador da unidade Gávea de Saúde Mental, em Brasília.

Mesmo quando há disposição para procurar atendimento, o acesso continua limitado. A alta demanda e a carência de medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS) dificultam o acompanhamento contínuo de pacientes em sofrimento psíquico. A interrupção dos tratamentos e a ausência de suporte agravam mais ainda os sintomas e prolongam o ciclo de adoecimento.

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